Bem utilizado, o sistema de fusão de vidros (fusing) permite o aproveitamento de sobras e pode até se transformar na atividade principal de uma vidraçaria. Os produtos que recebem toques artísticos deixam de ser comparados com similares do mercado e podem proporcionar uma margem de lucro maior, principalmente se forem direcionados a um público que exige e valoriza essa personalização.
Todavia, a fusão de vidros para transformar retalhos em arte não é para qualquer um. É uma atividade que exige sensibilidade, bom gosto e aptidão artística. Exige também informação sobre as tendências nos ramos da arte, da decoração, da arquitetura e do setor moveleiro.
Trabalhando há cinco anos com o sistema de fusão de vidros, o artista plástico Gustavo Benini tem conquistado uma posição de destaque nesse segmento. Seus painéis, feitos com vidro fundido, estão expostos em vários ambientes comerciais.
O artista explica: “Minha formação foi como vidreiro e me especializei. Atualmente estou com um trabalho voltado à arquitetura e à decoração e há cinco meses montei um ateliê maior, no bairro da Barra Funda, em São Paulo, onde estou produzindo minhas peças e dando cursos sobre fusing.Benini passa, a seguir, uma noção básica do que é a montagem de painéis. Ele declara: “Existe o estigma de que o fusing ficou limitado; a grande maioria passa a montar utilitários e pequenas peças, como cinzeiros e vasos. A gente vem trazendo uma visão de uma possibilidade maior. Esta técnica possibilita uma produção em escala sem abandonar o aspecto artístico, que é o que as pessoas procuram. Alguns usam fornos maiores e estruturas maiores. Essa possibilidade não está descartada também.”
O artista destaca que os painéis não têm limite de tamanho. Eles são montados em peças pequenas e podem ser colados sobre um vidro de segurança temperado, com cola UV ou silicone. Também podem ser aplicados diretamente na argamassa, encaixilhados como vitrais ou instalado em portas e luminárias.
No caso acompanhado pela reportagem da Tecnologia & Vidro, Benini preparava um painel para um restaurante que seria colado em vidro temperado, emoldurado e iluminado por trás. A peça seria formada por peças de 20 cm x 20 cm e teria o formato total de 60 cm x 1,20 m.
Tudo começa com um rascunho do desenho. Na maioria das vezes o arquiteto já entrega um desenho para ser executado. No caso, porém, o cliente deu liberdade ao artista para escolher o tema e o desenho. Benini escolheu o tema de garrafas com fundo em motivo de milefiores, que são vidros italianos para pequenos apliques. Também decidiu escolher a tonalidade branca opalina de fundo, devido à iluminação que será aplicada.
Após a aprovação do rascunho pelo cliente, passa-se para a fase de transportar o desenho para a proporção 1 para 1. Quando a peça final não é muito grande, como no caso, isso é feito quadriculando-se o desenho menor em uma folha de papel Kraft do tamanho do projeto final. Redesenha-se, então, o rascunho na proporção desejada, acrescentando-se os detalhes que achar conveniente. No caso de a peça final ser muito grande, é conveniente utilizar-se de um serviço terceirizado de plotagem. A plotagem é utilizada nos projetos arquitetônicos: ela transfere o desenho da tela do computador para o papel.

Primeiramente utilizou-se os quadros na espessura de 2 milímetros. Eles foram aplicados sobre o primeiro quadriculado do desenho. Utilizando-se de uma caneta para retro-projetor, com ponta média, o artista reproduz o desenho que está logo embaixo do vidro.
Após desenhar no vidro, inverte-se o lado da peça para fazer a pintura. São utilizados para isso pigmentos específicos para vidro, muitos dos quais Benini desenvolveu a formulação, como resultado de pesquisas e experiências. São feitas a partir de óxidos e carbonatos, de matérias primas minerais
Para o preenchimento dos desenhos, é importante lembrar que muitos pigmentos mudam de cor após serem submetidos a altas temperaturas. No caso, por exemplo, o azul cobalto, quando aplicado a frio, tem a cor rosa. A técnica escolhida para o painel foi a pintura entre vidros. A pintura é feita na parte interna que fica sobre a peça de fundo. Após o preenchimento da primeira peça, passa-se para a pigmentação das peças do fundo, que no caso possuem 8 milímetros.
Para o fundo, o artista optou por usar a tinta pura, em pó. Primeiramente limpa-se os vidros com um limpa-vidros.
Aplica-se uma cola especial perolizante feita com algas e potássio.
Com uma peneira, joga-se o pigmento em pó. Essa técnica proporciona nuances que valorizam o trabalho com um toque artístico.
Vale lembrar que o fusing possibilita também a produção industrial. No caso, uma pintura com um compressor, ou jato com cor, poderia ser utilizada.

Após a pintura do fundo com a peneira, é feita a sobreposição da peça da mesma forma como foi tirado o desenho.

A peça é então numerada, para facilitar a montagem, e levada ao forno previamente preparado. No fundo do forno, que precisa ser bastante liso, é aplicado o desmoldante. No caso, foi utilizado o caulim, aplicado com peneira. E aqui vai uma dica: o caulim creme libera menos gás que o branco.
A temperatura escolhida é de 780 graus Centígra-dos. Para chegar nessa temperatura, a peça precisa ficar aproximadamente 40 minutos no forno. Existe um cálculo de temperatura em função do tempo que vai determinar a fusão ideal. Cada tipo de vidro, cada tamanho de vidro, cada espessura e cada aplicação do produto interfere no tempo necessário para se obter a fusão desejada.

18-Com a peça pronta, passa-se para a fase seguinte de montagem até completar todo o desenho. O painel encomendado a Benini pelo restaurante foi montado em três dias.
O artista prepara-se para executar um painel com 170 metros quadrados com grande grau de complexidade. Ele estima que irão gastar vários meses para a conclusão do trabalho.
O ateliê, além dos curvos, fornece toda assessoria à empresa que quer entrar nesse ramo, bem como as tintas e pigmentos.