Com linhas modernistas, o projeto guardava princípios chineses, como o privilégio aos filhos do sexo masculino e um jardim interno no centro do estar
Na década de 1960, Araken Martinho tinha 28 anos e era formado fazia quatro anos pela FAU/USP quando foi procurado pelo empresário chinês Ting Ho Chuan com a encomenda de construir sua nova casa no bairro do Alto de Pinheiros, em São Paulo. O senhor Ting e sua família haviam desembarcado no Brasil em 1957 vindos de Xangai. Depois de recusar dois projetos de outros arquitetos, o visionário e empreendedor industrial, que comandava algumas fábricas e um moinho de trigo em Jundiaí, interior do estado, foi atraído pelas linhas modernistas de uma casa projetada por Araken na cidade.
Araken, que é natural de Jundiaí,recebeu a incumbência de projetar uma residência para a família de sete filhos, quatro homens e três mulheres, e, como manda a tradição chinesa, deveria privilegiar os filhos do sexo masculino, portanto cada menino deveria ter seu próprio quarto, enquanto as meninas teriam de compartilhar um único e maior dormitório. “Depois dos estudos preliminares de insolação, de ventilação e do tratamento adequado para o terreno sujeito a enchentes, comecei a fazer o projeto”, conta o arquiteto. “Projetei uma casa solta do chão, com um sistema estrutural modulado de pilares à mostra, e um sistema de vedação livre. Ou seja, podia-se criar compartimentos com a abertura e o fechamento das amplas portas e janelas”, explica.
O projeto também reciclava costumes, como o abrigo para a descida dos passageiros do automóvel junto à residência – numa época em que os carros não eram tão comuns – e o caminho que levava o veículo até a garagem. Ou ainda a cozinha colocada numa posição mais nobre, na frente da residência, e não nos fundos como era usual. A construção de linhas retas guardava no seu interior princípios milenares das edificações chinesas. Além do privilégio dos quartos particulares para os filhos homens, a sala de estar foi projetada com um jardim interno, onde havia uma ala de circulação central voltada para a área externa. “Havia vários biombos chineses, separando alguns ambientes da sala e garantindo a privacidade”, conta Lucia, uma das filhas da família Ting.
Em 1967, a casa foi inaugurada. “As ruas ainda não eram asfaltadas, havia poucas casas e os cavalos costumavam passear tranqüilamente pelo bairro”, recorda-se Luis Ting, um dos filhos. As festas de fim de ano costumavam concentrar de 80 a 100 pessoas, entre familiares e amigos, em torno dos deliciosos pratos, especialmente os de cozinha chinesa, preparados pela matriarca da família.
Para decorar o espaço interno da casa, o jovem arquiteto Araken orientou e acompanhou o senhor Ho Chuan na escolha de móveis de linhas arrojadas e contemporâneas. “Depois de tudo pronto, pagamento feito e de tudo finalizado, certo dia em Jundiaí, o senhor Ting pediu para pararmos numa concessionária e, diante de um carro zero-quilômetro, me disse: ‘É seu!’ Esse projeto foi o início de uma grande amizade entre nós”, relata o arquiteto e hoje também professor da PUC Campinas .
Fonte: Anuário Cad Casa Arte & Design 2008
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