Sustentabilidade, bem-estar e críticas construtivas ao setor marcaram a segunda edição do evento
Na busca de soluções no combate ao ruído, o 2º Seminário de Soluções Acústicas em Vidro [VidroSom 2010] trouxe à tona questões não só inerentes ao que seu nome propôe. Na primeira edição, em 2009, o foco principal do evento foi a eficiência das diversas aplicações em vidro para o controle do barulho no ambiente. Desta vez, as novas perspectivas e os desafios da construção civil envolvendo o vidro deram a tônica do evento.
Com organização da Atenua Som, patrocínio da Cebrace e apoio da Isover, o seminário mostrou que a aplicação correta do vidro contribui com a redução do ruído e colabora com um ambiente mais agradável, assim como essa questão também está intimamente ligada à redução do consumo de energia e à sustentabilidade.
O auditório lotado do MAM (Museu de Arte Moderna), no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, abrigou profissionais do setor vidreiro, arquitetos e fabricantes de esquadrias para as quatro palestras do dia, que expuseram questões que levaram todos os espectadores presentes à reflexão e ao debate de idéias. “Gostei muito das perguntas levantadas. Do ano passado para este, senti uma grande diferença”, comemorou o organizador do evento, Edison Claro de Moraes, diretor da Atenua Som e último palestrante do seminário.
Hora de mudar
Doutor em Engenharia Civil, Fernando Simon Westphal foi o primeiro palestrante do evento. Consultor técnico da Yawatz Engenharia, Fernando abriu o evento com uma provocação no título de sua palestra: “Vidro duplo: mito ou realidade?”. O questionamento veio da dúvida do mercado sobre a verdadeira eficiência do vidro duplo em amortecer o som e o calor em prédios comerciais. O engenheiro Westphal mostrou que o uso de vidro duplo, se estiver corretamente especificado, é diretamente responsável por reduzir custos de energia. “É possível alcançar o mesmo desempenho energético com o dobro de área transparente”, afirmou Westphal, atentando para a tendência dos prédios corporativos em se integrarem cada vez mais com o ambiente.
Ainda, o engenheiro apresentou o dado que 50% de toda a energia gasta em um prédio é destinada à iluminação e ao ar condicionado – ou seja, a fachada é peça-chave na eficiência energética da edificação. O vidro duplo incolor, além das propriedades acústicas, tem fator solar [radiação do sol que atravessa do vidro para o ambiente] de 76%, contra 87% do vidro incolor simples, além de ter uma resistência térmica próxima a de uma parede de alvenaria. “Com o vidro duplo, conseguimos um maior controle solar e maior resistência térmica”, declarou o engenheiro.
Mas o que justifica sua aplicação é a economia em dinheiro com relação ao seu custo. Respondendo às perguntas da platéia, Westphal citou um caso de um prédio corporativo no qual a aplicação de vidro duplo na fachada chegaria a R$ 1,5 milhão, mas que geraria uma redução de custos de apenas R$ 20 mil por ano. O clima da cidade é o que determina se o vidro duplo é a melhor opção, ao invés do brise e de outras alternativas. De acordo com Westphal, no caso de uma cidade de clima ameno como São Paulo, onde, em horário comercial, a temperatura fica abaixo dos 24°C durante 70% do ano, o vidro duplo provavelmente será menos eficiente do que em cidades como Rio de Janeiro e Recife, onde o clima é mais quente.
O engenheiro Carlos Henrique Mattar, Gerente de Desenvolvimento de Mercado da Cebrace, continuou parte da temática levantada por Westphal. Em sua palestra “A Contribuição dos Novos Vidros para o Dia a Dia”, Mattar falou sobre controle acústico e controle solar e a nanotecnologia aplicada em vidros autolimpantes. Ao exibir fotos de prédios modernos de grandes empresas ao redor do mundo, Mattar focou na importância do vidro para as construções autossustentáveis. “É um material 100% reciclável, melhora o ambiente de trabalho, é de fácil manutenção, é inerte aos reagentes químicos, tem grande versatilidade, baixa geração de resíduos e promove a redução do consumo energético”.
Mattar enfatizou os distúrbios que a poluição sonora pode causar no homem, entre eles: dor, agressividade, queda è de performance no trabalho, dificuldades de aprendizado nas escolas e, principalmente, distúrbios do sono. O vidro pode ajudar a atenuar isso desde que ele e o caixilho estejam corretamente especificados. Também explicou a diferença entre o vidro laminado e o vidro laminado acústico com PVB. “O Polivinil Butiral [PVB] tem a capacidade de diminuir a vibração, deixando passar menos ruído”, esclareceu o engenheiro da Cebrace.
O gerente de Desenvolvimento de Produtos e Projetos Estratégicos da Isover, engenheiro Carlos Gabriel Caruy, na palestra “Soluções Integradas para Conforto Térmico e Acústico”, falou sobre a NBR 15.575, norma que entrou em vigor em maio deste ano e estabelece desempenho acústico mínimo para as plantas que forem incorporadas nas prefeituras a partir de 12 de novembro de 2010. A norma afeta pisos, fachadas, paredes e divisórias internas [por exemplo, as paredes internas devem ter proteção mínima de 35 dB]; Caruy declarou que acha que a norma “veio em um momento importante” para o mercado, mas avalia que ela ainda “pode ser melhorada”.
O “momento importante” ao qual Caruy se refere é o grande crescimento da construção civil neste ano de 2010, e a perspectiva de uma grande década para o setor, tendo em conta as obras da Copa do Mundo e da Olimpíada. Mas fez um alerta: o setor está atrasado e terá que enfrentar o desafio de aliar rapidez e qualidade de serviço, desempenho e sustentabilidade. “O momento é agora. Temos que construir melhor; fazer bem-feito para fazer apenas uma vez, sem desperdício, sem retrabalho e sem reclamação dos clientes e usuários”.
Fechando o ciclo de palestras, o diretor do Atenua Som e idealizador do evento Edison Claro de Moraes veio com o tema “Tecnologia do Silêncio – Portas e Janelas”. Exibiu fotos de três cases reais que enfrentou, bem menores do que os prédios corporativos que haviam sido exemplos até então, e foi fundo na questão de Lei de Massa: vidros pesados resolvem problemas de ruídos em frequência grave, enquanto vidros leves e vedação bem feita são capazes de barrar ruídos agudos. “É muito importante saber as características do ruído para solucioná-lo”, ressaltou Edison, mostrando um case em que uma parede inteira foi trocada pelo usuário por não saber exatamente a natureza do barulho incômodo – tratava-se apenas de uma questão de vedação.
As demonstrações de holografia acústica fizeram a segunda parte da palestra de Edison Claro de Moraes, e expôs outra polêmica: a qualidade dos perfis está caindo, prejudicando o desempenho acústico no conjunto vidro-perfil. Nos diversos ensaios holográficos, Edison apontou que o vidro, mesmo quando bem especificado, perde sua eficiência quando o perfil é de má qualidade ou não está preenchido com massa de vidraceiro ou areia seca. “Queria fazer um parêntese: as construtoras convenceram um setor inteiro a baixar o custo e a qualidade sem repassar R$1,00 de desconto para o comprador de imóvel. É incompetência nossa e mérito deles”, desabafou Edison, dando razão aos alertas da palestra de Carlos Gabriel Caruy.
No entanto, Edison se mostrava otimista ao final do evento. “Acho que estamos no caminho certo. Quase ninguém foi embora, começamos às 14h e são quase 19h! Isso me deixou muito animado”, completou o organizador do evento, visivelmente esperançoso que o evento tenha colaborado para mudar a mentalidade do setor.
Conscientização desde cedo
O arquiteto Paulo Celso Duarte, palestrante na primeira edição do VidroSom e figura atuante no setor vidreiro, foi homenageado pela sua contribuição do setor. “O desenvolvimento do setor vidreiro era uma intenção. E fico feliz em ter realizado isso”, declarou, seguido de uma salva de palmas.
Pouco antes, às 14h25, a palestra do engenheiro Fernando Simon Westphal foi interrompida para a celebração simbólica do Dia Internacional da Consciência do Ruído, com 1 minuto de silêncio. A data, 27 de abril, foi instituída há 15 anos pela Liga Americana de Deficientes Auditivos, como uma forma de lembrar o mal provocado pelo ruído no dia-a-dia.
Para a organização do evento, o destaque da segunda edição do VidroSom foi o Concurso de Desenho “A Poluição Sonora e Minha Vida”, que reuniu mais de 300 trabalhos de crianças de 07 a 11 anos da Rede Estadual, da ONG Turma da Touca [entidade beneficente que atende crianças e jovens carentes do bairro Campo Limpo em São Paulo] e de filhos de funcionários de empresas que apoiaram o evento. Três desenhos foram escolhidos e as crianças autoras levaram para casa um Notebook cada. Todos os desenhos estavam expostos para a platéia durante o coffee break. “O ponto alto foi o concurso. Desperta o interesse das crianças e acho que é a partir dele que vamos virar o jogo”, destacou Edison Claro de Moraes.
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