Capital mineira sedia maior aquário de água doce do país. Os visores chegam a pesar 540 Kg; alta tecnologia na laminação e na vedação
Imponente. Ele já foi cantado junto à sanfona do rei do baião e transformado em hino sertanejo. Brasileiríssimo. Aparece no cenário do romance maior de Guimarães Rosa. Polêmico. Desde a época de D. Pedro II fala-se de sua transposição. A canção “Riacho do Navio” e o livro “Grandes Sertões Veredas” chegam a ser modestos na descrição do Rio São Francisco, que atravessa cinco estados brasileiros (Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco), possui trechos navegáveis e é dono de cenas arrebatadoras, como quando o sol toca-lhe o traçado. Agora, parte de sua biodiversidade deve ser preservada em um espaço que longe de aprisionar peixes pretende garantir-lhes a perpetuação, por vezes ameaçada. 
Está na reta final a conclusão do maior aquário de água doce do Brasil, com aproximadamente 900 mil litros d´água, 22 tanques e cerca de 1.325 espécimes do Velho Chico – algumas em vias de extinção. Instalado no Jardim Zoológico da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte-MG, o Aquário de Peixes da Bacia do Rio São Francisco é fruto de cálculos estruturais precisos apoiados em softwares de elementos finitos, do uso de materiais da mais alta tecnologia e do esforço da multidisciplinaridade técnica da construção, tais como integrar e compatibilizar projetos de concreto armado, impermeabilização, envidraçamento e vedação, observando as altas cargas hidrostáticas de longa duração.
Os vidros do aquário foram fornecidos pela Avec Design, que contou com as parcerias da Cyberglass para têmpera, da Terra de Santa Cruz para laminação e da Dupont para fornecimento do ionômero e apoio técnico ao dimensionamento e laminação dos visores. Foram usadas duas espessuras de visores, 33 e 39 mm, para duas diferentes situações de pressão d´água, sempre com três lâminas de vidro intercaladas por placas de Sentryglas (Saiba mais na página XX). “Repare que numa composição de 10+10+10 que normalmente nos referimos como 30 mm, total de vidro desprezando o PVB, consideramos 33 mm, incluindo a espessura do interlayer ianomérico. Isso foi uma das principais diferenças em relação ao laminado convencional porque pudemos aproveitar estruturalmente a espessura total”, explica o gerente de projetos da Avec, Felipe Aceto.
Deve-se ainda ao interlayer a resistência adicionada aos vidros temperados permitindo, inclusive, uma redução da espessura e consequente diminuição de peso. Isso acabou por viabilizar os processos industriais e logísticos das placas maiores. Caso a laminação tivesse sido feita com PVB, seria necessária uma composição de 10 + 10 + 10 +10 + 10 (50 mm) para ter o mesmo desempenho do vidro utilizado, 12+12+12 (39 mm).
Já no item estanqueidade foram os perfis de silicone – vulcanizados a alta temperatura – o coringa da vez. “Utilizados no encapsulamento e na vedação dos vidros, estes caixilhos sintéticos permitiram a adequação dos visores às suas sedes de concreto, bem como reforçaram a vedação diante da alta pressão hidrostática devido ao seu composto de alta resistência e elasticidade – além de proteger as bordas do vidro durante o transporte”, informou Aceto.
A instalação, por sua vez, precisou de cuidados extras; afinal, o visor mais pesado chegava a ter 540 Kg. Os vidros eram descarregados individualmente por um caminhão munk e uma ventosa com capacidade de 1.100 Kg. Depois as peças eram levadas para o local de instalação por uma empilhadeira, quando o vidro era então deslizado sobre cavalete (fabricado no local), que o mantinha inclinado, para que passasse para dentro do tanque, onde era içado por uma talha presa e pela ventosa especial encaixado na sede do concreto.
Quase pronto
Até o fechamento desta edição, o aquário ainda estava em processo de implantação. A obra acabara de ser entregue pela construtora e alguns tanques não estavam aptos para povoamento, pois os serviços de cenografia não estavam prontos. “Atualmente já manejamos aproximadamente 200 espécimes de 14 espécies. É importante que se leve em conta que muitas espécies do São Francisco nunca foram manejadas em cativeiro, ou seja, esse processo de adaptação ainda será conhecido”, assegurou o veterinário e diretor do Jardim Zoológico, Carlyle Mendes Coelho.
Oferecer lazer, realizar pesquisas, proporcionar educação ambiental e, principalmente, garantir a conservação de espécies são os pilares de sustentação do Aquário de Peixes da Bacia do Rio São Francisco. Datam de 1997 as primeiras ideias sobre a construção do reservatório. Porém, somente em 2002 foi possível ter recursos para contratar o projeto executivo, em uma parceria com o Ministério do Meio Ambiente. O início da obra deu-se em 2006.
Note, portanto, o quanto a preocupação com os ecossistemas do Velho Chico demandou um processo moroso e cheio de minúcias para estudo; foram visitados aquários no Brasil (o de Ubatuba, no litoral norte paulista e o do Ipiranga, na capital de São Paulo) e no exterior (o de Vancouver, Canadá) para adquirir experiência na rotina na manutenção de tanques e peixes em cativeiro.
O primeiro lote de peixes chegou ao reservatório em fevereiro deste ano. “Até o momento, a adaptação dos animais vem ocorrendo de forma satisfatória, com ganho de peso, e padrões de qualidade acima do esperado”, garante Carlyle. Entre os peixes em extinção, o pirá (Conorhynchos conirostris) deve ser exibido, manejado e objeto de pesquisa.
Por se tratar de obra pública, ainda não existe previsão para inauguração do aquário.
Curiosidades
• Os vidros foram calculados contando com a eventualidade de uma quebra, quando uma das lâminas de vidro deixaria de atuar estruturalmente.
• A deformação máxima prevista após um ano de pressão constante, que acontece um pouco abaixo do centro do maior visor, é de apenas 7 mm de flexa.
• Cada tanque possui um sistema de aquecimento individual e automático com termostatos, bombas independentes e aquecedores a gás, que funcionam 24h de modo a manter sempre a temperatura adequada para cada espécie.