Era vidro e se quebrou

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A churrasqueira que previu o futuro ou um probleminha quase diplomático; as possíveis causas que fizeram o vidro da churrasqueira do Planalto estilhaçar

A despeito dos vegetarianos que lhe torcem o nariz, o churrasco é quase uma paixão nacional. Nos pampas gaucho, é iguaria que se aprende a preparar de pai para filho. Talvez por isso e por gostos pessoais próprios o presidente Lula tanto quis mostrar este prato - nada digesto - ao presidente francês Nicolas Sarkozy, quando este por aqui passou para tratar da venda de seus caças à Força Aérea Brasileira. Mas tamanho empenho não logrou êxito, e os presidentes tiveram que se satisfazer com uma moqueca capixaba. O drama é resultado de uma churrasqueira envolta por vidros, que acabaram trincando e espalhando-se em farelos sobre a carne a ser servida. Mas o que deve ter acontecido, pois não é o vidro produto seguro? Foi exatamente isso que tentamos investigar.

Por um triz
Possivelmente, os vidros da churrasqueira do Palácio da Alvorada eram temperados. A questão é que mesmo com uma resistência maior que os vidros comuns, o vidro temperado aplicado em churrasqueira acidentalmente pode ser exposto a uma variação de temperatura superior ao seu limite ou ainda receber uma faísca ou brasa – a qual numa superfície muito pequena tem uma temperatura muito elevada –, causando um choque em apenas um ponto, o que pode fragilizar o vidro. Outra provável explicação para o fato pode ser a ausência de uma folga no projeto da churrasqueira. Assim como outros materiais, o vidro quando aquecido sofre dilatação; caso não existam folgas ou pequenos espaços entre as peças de vidro, ou mesmo entre o vidro e outro material, ele pode se romper.
No mercado já existem produtos com propriedades de segurança suficientes para evitar acidentes semelhantes. É o que garante a empresa Schott: “O Robax é um vitrocerâmico e, assim, leva grande vantagem sobre outros vidros temperados ou não. Seu processo de fabricação diferenciado assegura a resistência ao choque térmico e a altas temperaturas em virtude de uma expansão térmica quase nula, chegando a suportar cinco mil horas de exposição a 560 graus”, explica a gerente adjunta de vendas da Schott, Viviane Moscoso.
Para o coordenador de produtos da Cebrace, Remy Dufrayer, o episódio com a churrasqueira presidencial deixa o alerta: “Sempre devemos utilizar vidros de segurança em aparelhos que tenham contato com o público, além de verificar quais seriam as propriedades necessárias, como por exemplo, suportar brasas ou então termos um produto laminado/temperado para não estilhaçar, no caso de algum dos outros fatores falharem”.
Desde que usado de maneira correta, o vidro não oferece perigos. O temperado é muito utilizado em equipamentos de cocção, como fornos de fogão e portas de micro-ondas. Além disso, o vidro pode oferecer inúmeros benefícios como transparência, segurança, controle acústico, controle solar e também resistência térmica. “O vidro é um material muito estável à temperatura ambiente, pouco reagente com alimentos e medicamentos. Inclusive, a partir de estudos recentes existe uma forte migração na utilização do vidro em mamadeiras demonstrando a confiabilidade desse material como um material doméstico”, comenta Dufrayer.
A precipitada negociação de Lula com Sarkozy, que sequer consultou o comandante da Aeronáutica e acabou gerando reclamações por parte dos concorrentes da francesa Dassault – a americana Boeing e a sueca Saab – previa uma operação de US$ 4 bilhões. Mas nada ainda foi assinado. Parece que como a churrasqueira, o acordo de cavalheiros pode ter lá seus cacos espalhados.
 

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