Carlos Bratke e o vidro

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9365Arquiteto faz uso do material até mesmo em seus projetos pessoais e afirma que ele pode ser muito mais explorado

 

Um dos itens que se destacam na recente reforma da casa de campo de Carlos Bratke, localizada na cidade montanhosa de Campos do Jordão (SP) é uma cobertura de vidro com grandes chapas de laminados de temperados transparentes. Essa utilização arrojada do material não foi por acaso. É fruto da experiência do arquiteto, que acredita que o vidro tem ainda muito potencial no Brasil.
Aos 66 anos, sendo mais de 40 de profissão, Bratke se prepara para lançar um livro no mês de agosto com alguns de seus trabalhos. A casa de Campos do Jordão será incluída na publicação. A revista Tecnologia & Vidro foi ouvir o arquiteto sobre sua vivência com o vidro. Além do desabafo que rendeu uma matéria específica (leia nesta edição), Bratke falou das vantagens e possibilidades do material. Acompanhe abaixo uma parte da entrevista.


Vamos começar falando sobre a reforma em sua casa em Campos do Jordão, que é um trabalho que utilizou o vidro de forma diferente.
Essa casa foi construída há 19 anos e há dois fiz uma reforma mais substancial. Fui comprando terrenos aos lados ao longo dos anos e acabei ficando com 10 mil metros quadrados. A casa do caseiro era embaixo porque o terreno era muito apertado e íngreme.  Não havia muita possibilidade de distribuição melhor. Então, com esse aumento de área eu resolvi tirar a casa do caseiro e fazer uma separada, usando essa parte, que era embaixo, para ampliação. Eu acabei escavando por baixo, as brocas da casa antiga foram aparecendo. Foram deixadas lá como se fossem uma ruína mesmo. E como tinha muito pilar, acabei fazendo muito revestimento em pedra...


E por que o vidro entrou com essa cobertura de grandes chapas no projeto?
Porque queria climatizar a casa. O vidro entrou com o fator de aquecimento, como se fosse um jardim de inverno, porém agregado à ela. E até pensei que fosse colocar alguns toldos depois, mas aí fui ver que era uma complicação fazer um toldo eletrônico e descobri que realmente não precisava dele.

A obra em Campos do Jordão
Isso porque o clima lá de Campos do Jordão é frio?
Isso mesmo. Mesmo no verão às 16h ou 17h já começa a esfriar. Então, é fresquinho. Agora no inverno é uma delícia aquilo lá. Fica bem quentinho.


Quente e iluminado?
Sim, deixa entrar bastante luz. E a gente passou a usar bastante esse espaço. Porque ficou um ambiente bonito e agradável. Acabou permitindo uma integração com a natureza.


Da pra usar essa idéia em outros projetos?
Sim. E eu tenho uma crítica para fazer ao brasileiro, em geral, que gosta de fazer casas ou edifícios com janelas pequenas. Parece que tem vergonha de aparecer! Hoje com as possibilidades do vidro, é bom deixar entrar a luz. É uma atitude profilática essa insolação das residências porque o sol é um agente higienizador, mata bactérias, evita fungos, evita mofos e umidades. Em outras partes do mundo, principalmente em lugares frios, as janelas são grandes.


Será por questões econômicas?
Há 30 anos o vidro era um dos materiais mais caros da construção. Hoje não é. Hoje é um material que não é tão caro.

Está mais acessível e evoluiu muito...
Concordo, o vidro evoluiu muito. Por exemplo, no meu livro [que está sendo publicado] eu cito o exemplo do edifício JBA (em São Paulo). Nesse projeto queria dar a impressão de um cubo sendo atravessado por um cilindro. Muito mais pelo efeito estético do que técnico. Para conseguir este efeito eu não quis usar Alucobond, porque eu usei muito esse material e ele ficou batido. Até padaria hoje tem Alucobond na fachada. E os clientes também não queriam. Resolvemos partir para o vidro, só que eu não conseguia um vidro todo branco porque o vidro nacional é esverdeado. A solução que melhor atendia era também a mais cara: usar um laminado com o vidro importado Extra White (Guardian). Acabamos chegando a uma solução simples. Usamos por dentro um vidro nacional (esverdeado) com 8 mm, o polivinil butiral branco e, do lado de fora, um vidro Extra White americano com somente 3 mm de espessura. Saiu relativamente barato e descobri que o vidro composto dessa forma se torna um vidro à prova de som.


Você tem acompanhado a evolução do vidro na arquitetura?
Eu vou vendo algumas funções dos vidros fora do Brasil que os arquitetos estão tirando partido. Estou aqui com um e-mail de um pessoal que se propõe a fazer desenhos em vidro, quer fazer uma fachada toda desenhada. E sei que essa possibilidade é real, porque vi um projeto na Argentina há dois anos atrás, do Cesar Teles. Em uma biblioteca num lugar muito frio dos Estados Unidos, ele aproveitou o fato de que existe uma determinada árvore característica daquele lugar, com uma determinada forma. Ele fotografou essas árvores, redesenhou e serigrafou nos vidros. Como as paredes são formadas por vidros de correr, é possível escurecer e clarear o ambiente com essas peças.


Seria possível explorar o vidro de forma parecida no Brasil?
Sim. O vidro oferece muitas possibilidades e o pessoal não está explorando como deveria. Por exemplo, eu tenho uma solução que estou patenteando e implantando no centro administrativo da refinaria presidente Bernardes, em Cubatão (SP). Lá existem muitas salas de reuniões que precisam oferecer a opção de abertura e fechamento das divisórias. A opção que existe de persiana entre vidros é caríssima. Então, eu bolei um sistema de vidro serigrafado com listas, aplicado sobre outro semelhante, e um sistema que permite deslizar uma das chapas alguns milímetros para o lado. É uma solução barata e que vai resolver esse problema. E pode no futuro ser aplicado em fachadas também.


Fale-nos sobre o lançamento de seu livro.
Esse livro é um apanhado de algumas obras minhas que destaco. Não se trata de um livro de arquitetura. Ele vai ser lançado na segunda quinzena de agosto, para dar tempo do pessoal voltar de férias. Já estou com uma versão impressa fazendo as últimas correções. Ele será lançado pela editora Jacques Carol e será  encontrado nas principais livrarias. Vamos fazer o lançamento em uma livraria famosa. Em setembro, em Florianópolis, vou ser palestrante em evento de turismo e vai ter sessão de autógrafos lá. Também vai ser lançado na bienal da Argentina e na bienal de São Paulo, ambas em outubro.

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