Livro apresenta trabalho acadêmico sobre o setor

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Estudo analisa o problema da concentração de poder na produção de vidros

Um livro que levanta polêmica no setor vidreiro é o recém lançado Concentração de Poder em Cadeias Produtivas, de Márcio Roberto Moran. A publicação aborda o tema da concentração de mercado a partir do estudo de caso da indústria do vidro float brasileira.

Márcio, 31 anos, trabalhou mais de dois anos na Avit, fábrica de molas hidráulicas do próprio pai, Lineu Paulo Moran, e é sobrinho de Léo Moran, ex-presidente da Andiv (atual Abravidro).

A ideia de desenvolver esse tema surgiu na Fundação Instituto de Administração / Universidade de São Paulo (USP), onde fez um MBA. Inspirado pelos anos que atuou no setor e pelas inúmeras conversas e reclamações que ouviu dos vidraceiros brasileiros, decidiu pesquisar e transformar em livro seu trabalho acadêmico. Márcio é economista, formado pela Universidade de São Paulo (USP), e também trabalhou em grandes empresas, como Phillip Morris, Klabin e OPP Química. Atualmente é sócio-pesquisador da OTB Assessoria. A revista Tecnologia & Vidro entrevistou o autor para conhecer um pouco mais desse trabalho e seu propósito. Acompanhe abaixo parte da entrevista.

Por que abordar esse tema em livro?

A carência por publicações e pesquisas que chegam ao grande público sobre o setor foi uma das motivações para tornar esse estudo público. Além disso, o tema da concentração de poder interessa à sociedade de forma geral, porque prejudica a vida dos consumidores. A concentração na indústria do vidro float, do cimento ou da aviação comercial, traz prejuízos às pessoas na medida em que a oferta está nas mãos de poucos agentes. Isso significa que as empresas têm o poder de definição dos preços. E onde não há concorrência não se maximiza o bem estar da sociedade, a não ser que ações governamentais, como subsídios, compensem isso.

O trabalho é imparcial e científico?

Sim, o trabalho tem os princípios da pesquisa acadêmica. Eu procurei trabalhar com maior grau isenção e imparcialidade possível. Todos os argumentos contidos nele são fundamentados, seja por fontes teóricas, seja por documentos já publicados sobre o mercado.

No livro você faz uma comparação entre 14 economias mundiais e chega à conclusão de que no Brasil essa concentração é a maior de todas.

Na verdade, eu tinha uma base de dados até maior que essas 14 principais economias. Mas a partir de um determinado valor do Produto Interno Bruto (PIB) dos países a comparação perde o sentido. Às vezes, um país tem uma única empresa instalada sendo que nem é para atender o próprio mercado, mas porque tem uma posição geográfica interessante para atender a outras praças. Fazia parte dos objetivos deste trabalho entender como a indústria do vidro float brasileira estava, sob a ótica da concentração, comparativamente às maiores economias do mundo. O que se pode constatar é que o mercado brasileiro é o mais concentrado.

Como foi feita essa comparação?

O PIB foi a medida usada para classificar as maiores economias. Uma vez ordenadas decrescentemente pelo PIB, separei as 14 maiores. Então usei índices de concentração, que faz parte do instrumental teórico da economia industrial, para medir como a indústria do vidro em cada país estava constituída.
E em termos de preços? Você chegou a ver quanto era cobrado o metro quadrado do vidro em cada um desses países?

Não era um dos objetivos desse trabalho analisar a formação de preços da indústria. O objetivo era analisar a concentração do mercado, as causas da concentração e o que se pode fazer para reduzir essa condição que está instalada no Brasil hoje.

Você cita que existem duas possibilidades para reduzir essa concentração: a primeira seria a importação, mas enumera os riscos também.

Na verdade, a importação pode ser uma saída para que os clientes usem-na como instrumento de barganha na negociação com seus fornecedores locais. Além disso, é uma forma de redução de custos caso os preços fora do país e nacionalizados ainda sejam competitivos. Mas existem riscos intrínsecos a essa ação. O risco cambial é um deles. Não é recomendável para qualquer empreendedor manter boa parte do volume de consumo na importação se o cenário se mostra relativamente instável. Isso significa que a vantagem de custo num dado momento pode desaparecer por uma desvalorização do real, por exemplo. Coloco também outras situações. Um exemplo simples é uma greve na Receita Federal, que acontece bastante. O empresário antecipa os recursos, espera a produção e o transporte desse estoque e, no momento em que acha que vai contar com ele, tem de aguardar uma solução política ou burocrática.

A outra solução apontada seria uma união entre os transformadores?

A solução analisada que traria maior impacto sob todas as causas da concentração de poder na indústria do vidro brasileira seria uma aliança entre clientes. No caso específico eu delimitei o trabalho na transformação, por isso proponho uma aliança entre transformadores.

Essa idéia é revolucionária? Você é um agitador, ou isso já acontece em outros países e é uma prática comum de mercado?

Não se trata de uma idéia revolucionária. Primeiramente, é importante destacar o caráter acadêmico do trabalho. Era preciso propor uma solução estratégica para o problema da concentração, então ofereci essa. Sobre sua outra pergunta, posso afirmar que alianças como essa já se verificam em outros países. Transformadores independentes que se associaram para construir plantas já é algo difundido lá fora. Eu consegui identificar casos na Rússia e nos Emirados Árabes, por exemplo. E não são poucos os casos em outros setores. Há indústrias de cimento independentes, formadas por fabricantes de insumos que integraram a cadeia para frente também.

Essa seria a única solução?

Não é a única, mas é, provavelmente, a solução que teria maior impacto sobre a concentração de mercado. Porque analisando-se as causas da concentração, essa solução teria impacto sobre a maioria delas. Enquanto a entrada de um fabricante estrangeiro que não atue no Brasil também teria impacto, mas um pouco menor.


No livro você cita barreiras à entrada de novos fabricantes de vidro.

Sim, algumas são intrínsecas ao negócio e outras são fruto da estratégia das próprias empresas instaladas. Um exemplo de barreira intrínseca é a necessidade de grande quantidade de capital. Para se montar um forno float são necessários cerca de 150 milhões de dólares. E poucas empresas no Brasil têm condições de executar um projeto como esse. Não é possível montar um forno barato, ainda. Existem algumas iniciativas por parte dos fabricantes que inibem também, como o anúncio de construção de novas plantas no país. Acredito na necessidade de ampliação da capacidade instalada, mas o anúncio feito com alguma antecipação faz também com que empresas que estivessem pensando em entrar no mercado comecem a refletir a respeito do aumento da oferta proporcionado pelos próprios fabricantes. Isso é um exemplo de como a estratégia dos fabricantes pode também inibir a entrada de novos competidores.

Mais informações: www.totb.com.br/publicacoes ou pelo telefone (11) 3170-3191.

 

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