“Alguma coisa está fora da ordem. Fora da nova ordem mundial” escreveu Caetano Veloso sobre o fim da bipolaridade entre Estados Unidos e União Soviética (em 1991). A saber, a multipolaridade da economia mundial não mudou muito a situação dos países ricos nem a dos países pobres. Passados quase vinte anos, como anda a conjuntura sócio-econômica mundial?
“A única coisa certa é que algum dia, sem falta, haverá outro desastre semelhante”. Esse é o significado para a crise de 1929 pelo célebre economista americano e autor de vários livros sobre o assunto, John Kenneth Galbraith. Desde a derrocada do centenário banco de investimentos americano Lehman Brothers, em setembro do ano passado, vivemos uma fase delicada no âmbito econômico mundial. Nesse meio tempo, muita água já rolou nos moinhos que giram a economia. Que tal fazermos um brevíssimo panorama destes primeiros cinco meses de 2009? Guardada suas devidas proporções, parece que como dizem o presidente Lula e o presidente americano Barack Obama, o pior da crise já passou. Discussões, encontros e medidas práticas têm sido tomadas.
Na França, concluiu-se que não é o capitalismo que deve mudar, mas sim a forma como interpretamos suas ideias. Em Londres, na reunião com os 20 maiores países do mundo, o G-20, acertou-se injetar na economia do planeta a nada simbólica quantia de US$ 1 trilhão – lembrando que já foram despejados US$ 11 trilhões para levantar o ânimo de investidores capitalistas.
O segundo homem mais rico do mundo, Warren Buffet (US$ 37 bi), só perdendo para Bill Gates (US$ 40 bi), disse acreditar que o governo americano está fazendo um “bom trabalho” – e olha que seu fundo de investimentos, o Berkshire Hathaway, teve sua primeira perda em 44 anos. Em seus primeiros cem dias de governo, o primeiro presidente negro dos EUA teve 68% de aprovação – para 2010, ele fez um plano de orçamento cuja reforma de impostos amplia a carga para os mais ricos.
A China sugeriu a criação de uma nova moeda mundial em substituição ao dólar, visto que os asiáticos são os maiores credores estrangeiros dos Estados Unidos. Impossível isso não é, pois foi mais ou menos o que aconteceu com a libra esterlina que dominava soberana até a I Guerra Mundial (1914-1918). Mas, naturalmente, o Tio Sam não deve ser tão cavalheiro para quem quiser levar tal ideia adiante. E para não sair do continente, treze países asiáticos – Japão, China e Coreia do Sul estão no meio – concordaram em criar nos próximos meses um fundo de emergência de US$ 120 bilhões para juntos se reerguerem da crise.
O futuro é incerto, mas a tendência é saímos da crise revigorados, com experiência acumulada e conscientes de que o protecionismo é, sim, pernicioso. Afinal, tudo fica mais fácil quando os países de unem para combater algo comum ao invés de criar “muros” entre si. Agora é só torcer para que os bancos não mais emprestem dinheiro para quem não tem condições de lhe pagar. Assim esperamos.
Nos trópicos
Nós brasileiros nos tornamos chiques, nas palavras do presidente do país, ao entrar no clube dos 47 países credores do FMI (os financiadores das operações do Fundo); a contribuição tupiniquim pode chegar a US$ 4,5 bilhões, saídos dos títulos de aplicação internacionais.
E o otimismo continua. Em parte por políticos: Lula já repetiu algumas vezes que 50% da crise é fruto do efeito psicológico que fez as pessoas pararem de consumir; o ministro da Fazenda, Guido Mantega, garantiu que o Brasil terá o segundo melhor desempenho fiscal em 2009 entre os países do G-20. Na outra ponta, estão altos empresários, como Abílio Diniz, cujas empresas geram empregos para quase 100 mil pessoas; ele também se mostra afirmativo sobre o fim do pior.
Muitas, muitas casas
Na expectativa de se gerar 500 mil postos de trabalho na construção civil, foi anunciado, no dia 25 de março, o pacote habitacional do governo federal intitulado “Minha casa, minha vida” que visa a construção de 1 milhão de casas. “Pela primeira vez na história da República um presidente lança um programa social na sede da aristocracia da diplomacia brasileira”, disse Lula à ocasião. O plano terá recursos de R$ 34 bilhões e prevê a construção de moradias para famílias com renda de até 10 salários mínimos. O salário mínimo em vigor é R$ 465.
A oposição chamou o plano de “pactóide habitacional” por não ter sequer o prazo definido para a construção de tantas casas, sendo mais uma jogada de marketing para eleger a possível candidata Dilma Rousseff em 2010 do que mesmo uma preocupação genuína com o déficit habitacional de 7,2 milhões de moradias (90% estão concentrados na faixa de renda entre 0 a 3 salários mínimos).
De início, o pacote foi comemorado pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon), onde seu presidente Sérgio Watanabe avaliou o pacote como “robusto” e “bem estruturado”. Agora no mês de maio, no entanto, críticas começaram a surgir contra o plano habitacional. Construtoras, o governo de São Paulo e a prefeitura de São Paulo, por exemplo, alegaram que o plano para a classe de baixa renda (de até três salários mínimos) não desperta interesse do setor. O Ministério das Cidades anunciou que, caso seja necessário, mudanças no “Minha casa, minha vida” podem acontecer. É aguardar para ver até onde (e quando) a história vai.
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