Um grande projeto que envolve vidros pede a participação desses dois profissionais. Só uma boa comunicação para alinhar o interesse de ambas as partes
Imagine uma conversa entre um grego e um troiano. Um bate-papo entre dois torcedores de times rivais. Ou uma discussão de um político esquerdista com um outro de direita. Qual o resultado mais provável? O enriquecimento para ambas as partes por meio da troca de ideias. Pelo menos deveria ser, quando se pensa que vivemos num mundo civilizado em que o debate impera entre as nações desenvolvidas. Mas e o vidraceiro e o arquiteto?
Esta questão foi levantada na matéria “Crítica construtiva aos fabricantes de vidros e vidraceiros” no site da revista onde uma usuária postou: “O problema todo é que arquiteto acha que conhece vidro. Querem projetos inviáveis e impossíveis. Sem falar nas ‘gordas’ comissões que temos que pagar a eles. A arquitetura tem que se adequar ao vidro e não vice-versa. Empresas vidreiras desenvolvem vidros especiais para oferecerem aos arquitetos, ao invés de ficar à disposição para desenvolver somente quando o mercado pede. Ah, também somos mal atendidos pelo ramo de arquitetura”. E agora, quem tem razão? E a razão existe?
Com a palavra o arquiteto e professor da Unitau (Universidade de Taubaté), Manoel Carlos de Carvalho: “A arquitetura é a arte e técnica de construir um edifício. Você não pode fazer só arte e você não pode fazer só técnica. Quando você consegue fazer na construção civil a arte e a técnica se casarem perfeitamente, você vai provavelmente ter um bom edifício”. O arquiteto fala com o know-how de quem atua no mercado há quatro décadas e leciona há mais de 35 anos.
Para Carvalho, o arquiteto é um profissional que possui um leque de funções bastante diversificado. Como exemplo, cita o caso específico das fôrmas de concreto – existem pessoas habilitadas a desenvolver apenas este tipo de material.
Mas voltemos ao universo do vidro. Uma das queixas da proprietária da vidraçaria Lamividros, Daniela Menegaz, é o pedido por parte de arquitetos para a execução de obras que ela considera como inviáveis. “Existem curvaturas que não são possíveis, peças pesadas que não podem ser sustentadas como planejadas pelo arquiteto”, argumenta Daniela.
A beleza de obras envidraçadas mora exatamente no elemento surpresa, naquilo que é construído especialmente para causar admiração. E só construções ousadas para despertar o mínimo de espanto no observador que passa desatento nas ruas dos grandes centros urbanos. “A proposta do arquiteto está sempre focada em algo que é possível fazer, não adianta propor o impossível. Agora existem coisas que ainda não foram feitas”, destaca Carvalho.
Nesse sentido, o estádio nacional de Pequim da Olimpíada da China de 2008, mais conhecido como “Ninho de Pássaro”, cuja construção arrebatou elogios portentosos por todo o mundo, serve como ilustração para o comentário do arquiteto. “Aquilo é uma verdadeira loucura do ponto de vista estrutural. Quer dizer, ninguém nunca tinha proposto uma coisa dessas, mas os passarinhos vem fazendo isso há milhões de anos. Se formos analisar, aquela estrutura está no mais alto grau que uma estrutura pode ter, ou seja, ela é a própria arquitetura do edifício”, entusiasma-se.
Com empresa sediada em Santa Catarina, Daniela Menegaz concorda que boas ideias devem ser exaltadas na construção civil, mas ressalva: “O projeto deve ser feito em conjunto para não ser refeito depois. Muitos projetos são refeitos por causa da inviabilidade na hora de executar a colocação do vidro”.
Em Minas Gerais, fomos buscar a opinião de Nair Feu, arquiteta e dona da vidraçaria Vintage: “O importante é ter parceria, se tornar aliado dos arquitetos e decoradores”, garante. Por sua vez, a aliança entre vidraceiros e arquitetos deve fluir não apenas na venda, mas também na execução do projeto. “Tudo pode ser conversado. Se o vidro é grande, sugerimos diminuir a sua altura. Se o vidro é pesado, combinamos de mudar a sua fixação. Fazemos com que o projeto ocorra, mas, se for necessário, com adaptações”, explica Nair.

Em um ponto, pelo menos, todos os entrevistados concordam. É preciso ter diálogo, sim. “Antes de finalizar o projeto, o ideal seria que o arquiteto chamasse um vidraceiro de sua confiança, para alterar o que precisar antes de se começar a obra”, aconselha Daniela. “Como toda profissão, eu também sei que existem bons e maus arquitetos. Não se pode generalizar”, acrescenta.
E os desafios que venham. “As dificuldades que o arquiteto às vezes cria ,quando projeta algo novo, devem ser encaradas pelo outro lado como um desafio que deve ser resolvido”, salienta Carvalho. As fabricantes de vidro plano e float podem e devem colaborar para essa comunicação sem ruídos entre arquitetos e vidraceiros. Para a arquiteta e vidraceira Nair, falta informação no meio. “Quanto mais esclarecidos forem os arquitetos quanto às informações técnicas do vidro, melhor. E eu percebo que há uma carência de instrução. A Guardian se preocupa com isso; acho que todas [fabricantes] deveriam fazer o mesmo”. Isto é, a comunicação também faz parte do negócio, em especial quando todos jogam no mesmo time – digo, setor.
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