28 Março 2011

Sinais de amadurecimento no setor de ferragens para vidros temperados

Produtos tradicionais evoluem e artigos mais elaborados têm encontrado público certo

 

especial

Quem se propõe a comprar um automóvel hoje se depara com vários fabricantes e uma infinidade de modelos, ficando, muitas vezes, confuso diante de tantas opções. O mesmo ocorre no setor de ferragens para vidros temperados, indicando evolução e amadurecimento.

Há aproximadamente 50 anos a Santa Marina trazia para o Brasil as primeiras. Eram poucas e limitadas opções feitas em latão que atendiam bem à demanda da época. Hoje a situação é bem diferente. São dezenas de produtores nacionais, chamados popularmente de ferragistas. Grande parte deles não se limita apenas a copiar os modelos, mas muitos fizeram aperfeiçoamentos em sistemas antigos e diversos criaram peças inéditas.

Entre as peças criadas existem ferragens para instalação de portas grandes, ferragens desenvolvidas especialmente para montagem de banheiros, ferragens para instalação de vidros curvos, fechaduras biométricas, ferragens com angulações diferenciadas, ferragens para coberturas de vidro, ferragens para montagem de estandes em feiras e muitas outras.

A diversidade é tão grande que hoje é impossível a um instalador de vidros temperados conhecer todas as soluções existentes. O que cada um faz é ir conhecendo aos poucos e anotando as vantagens de cada uma para usá-las no momento oportuno.

A variedade não para por aí. Hoje é possível escolher ferragens com diversos níveis de acabamentos, com modelos apropriados para casas populares e outros mais adequados a empreendimentos de luxo. Também existe variedade de materiais utilizados, incluindo latão, alumínio, zamac, inox e até de material pertencente à família dos plásticos.

A T&V não pretende esgotar o assunto com esta reportagem, pois isso seria impossível, mas apenas oferecer um panorama a quem lida diariamente com esses produtos.

 

 

Ferragens para Vidros e sua evolução

Na maior parte do mundo as ferragens para vidros evoluíram nas pranchetas dos designers e foram aceitas pelos arquitetos e engenheiros.

Aqui no Brasil quem determinou o sucesso ou não das linhas de ferragens foram os instaladores. E o perfil do instalador brasileiro historicamente foi o de preferir preço baixo e facilidade na instalação.

Geralmente o instalador só mudava de produto quando o modelo a ser utilizado de ferragem já vinha detalhadamente especificado por um arquiteto ou decorador no projeto.

Esse é o motivo que levou o mercado a utilizar por várias décadas as mesmas linhas de ferragens: Santa Marina e Blindex (1000, 2000 e 3000). Mas esse quadro está mudando.

 

 

Linhas Santa Marina e Blindex

Os pioneiros na produção de vidros temperados no Brasil foram a Santa Marina, atual Saint-Gobain Glass e a Santa Lúcia Cristais Blindex, atual Pilkington-Blindex. A introdução das ferragens para vidros também foi feita por elas.

Como no Brasil não haviam ferragens apropriadas, as duas empresas trouxeram de fora os desenhos e a tecnologia necessários.

Em um determinado momento a Santa Marina decidiu que faria melhor negócio se, em vez de vender o vidro e a ferragem, vendesse somente vidro, porém, em maior quantidade. Foi então que abriu sua patente da linha 1000, permitindo que seus modelos pudessem ser produzidos por qualquer empresa que se interessasse em entrar nesse segmento.

A Blindex, por sua vez, preferiu manter seu departamento de ferragens interno, iniciado na década de 60. O volume consumido era pequeno e a empresa entregava as portas com as dobradiças já colocadas e prontas para a instalação.

A partir de 1974 a Blindex desenvolveu a linha 2000, que era menor e tinha a fixação por parafuso Philips, terceirizando depois essa produção.

Wagner Luiz de Gerone, atual proprietário da GMS, trabalhou nesse setor da Blindex desde 1974 e afirma que a grande evolução aconteceu com o desenvolvimento da linha 3000, em 1995. Em vez de ser instalada no recorte do vidro, era fixada por furos.
Teoricamente seria melhor, pois garantia mais área de contato e melhor fixação, deixando o vidro menos tencionado. Para a preparação do vidro o sistema também facilita, pois dispensa a necessidade de se fazer novo corte após a furação.

No entanto, a preferência dos temperadores nacionais continuou sendo para as ferragens com recortes. A escolha se deu principalmente porque elas permitem que, através de ajustes na obra (chamados por alguns de gambiarras), os vidros sejam instalados, apesar de pequenos erros cometidos anteriormente na medição ou na produção.

 

 

 

Molas de piso

Paralelamente à utilização das ferragens, Santa Marina e Blindex procuraram, na década de 70, a fabricante de molas aéreas Gemiclo para que desenvolvesse no Brasil um modelo de mola de piso para portas de vidro temperado.

Com o primeiro modelo desenvolvido, as duas empresas tiveram exclusividade na instalação das molas. Porém, em um determinado momento, o ferramenteiro, que tinha feito a ferramenta para criação dessas molas, saiu da Gemiclo e montou a Adoc, que com o tempo fechou. Com o mesmo pessoal que nela trabalhava foi montada a Avit. Conta-se que, de modo semelhante a Avit gerou a Elvi, que gerou a Meron.

 

 

Em 1984 a multinacional Dorma chega ao Brasil através da compra da Gemiclo. Introduz tecnologia européia no produto da empresa e lança diversos modelos, culminando, em 1995, com o lançamento da BTS 75 V, que trazia como novidades eixos intercambiáveis, regulagem de potência, controle hidráulico de 360 graus, reduzidas dimensões, facilidade de instalação e durabilidade superior. O modelo até hoje é líder em vendas em toda a América Latina.

 

 

Sobrevivendo ao teste do tempo

 

Com a abertura da patente da linha 1000, diversas empresas passaram a atuar no segmento de ferragens para vidros. Entre as pioneiras, surgidas na década de 80, estavam Avit, Elber, Elvi, Belga Metal Plástica, Dorma, Metalúrgica São Nicolau, Metalúrgica WA e Microshell. Na década de 90 surgiram muitas outras, entre elas Glass-Vetro e GMS.

Poucas empresas iniciadas no início do setor de ferragens, entretanto, completaram uma década sequer. As diversas crises pelas quais passou o setor e a concorrência predatória fizeram muitas fecharem as portas, principalmente aquelas que davam ênfase ao preço baixo em detrimento da qualidade. Somente sobreviveram as empresas que se destacaram pelo aperfeiçoamento ou por desenvolverem produtos com diferenciais.

A Dorma, por exemplo, chegou ao Brasil em 1984 trazendo consigo o padrão europeu de ferragens para vidros, dotado de capas destacáveis, denominado Linha Dorma Glass. O produto demorou a ser aceito pelos vidraceiros, mas atualmente já encontra seu público cativo. Além disso, a multinacional alemã lançou diversas outras linhas, trabalhando sempre voltada ao cliente que exige produtos diferenciados de alto padrão.

Outro sucesso pautado pela diferenciação foi o da empresa Belga Metal Plástica, criada em 1988. Logo no início os sócios procuraram buscar novidades no mercado internacional. O setor brasileiro, entretanto, era muito resistente a mudanças. Procuraram, então adaptar e melhorar o que o público já aceitava, culminando no produto 9201 que utiliza o nylon no processo de embuchamento das ferragens. Esse pequeno detalhe melhorou o desempenho da ferragem e projetou a empresa, transformando-a em uma das líderes de mercado até hoje.

Segundo a diretora da empresa, Laurenil de Castro, o mercado atual está mais receptivo, fato que motivou a parceria com uma empresa italiana criando a Belcon. Essa empresa ligada à Belga oferece soluções mais nobres para a instalação de vidros temperados. A Belga, porém, não abandonou a linha mais tradicional, que continua bastante procurada.

O case de sucesso da Metalúrgica WA, criada em 1973, é pautado no desenvolvimento de novos produtos e em sua produção em larga escala. Esse diferencial, entretanto, tem seu preço. A sócia-proprietária Regiane Barrinovo comenta que praticamente todo produto desenvolvido e lançado pela WA é copiado em pouco tempo pelos concorrentes. “ A globalização fez com que nada mais seja exclusivo, pois a partir do momento em que uma empresa mantém um site no ar com seus produtos, com certeza estará se expondo ao risco de serem copiados até mesmo do outro lado do mundo”, conta. Apesar desse fato, a WA continua desenvolvendo e lançando anualmente diversas novidades e soluções para o setor vidreiro.

Em 1996 a Glass-Vetro chega ao mercado oferecendo ampla variedade aos vidraceiros. Entre as várias opções, a empresa trazia do exterior novidades e soluções para os instaladores, especialmente ferragens diferenciadas e com design inovador. O diretor Nelson Libonatti explica que por várias vezes ficaram com produtos parados na prateleira devido à resistência dos instaladores a novidades. Porém, acredita que esse trabalho surtiu efeito com o passar do anos e hoje colhem os frutos, comercializando com sucesso ferragens diferenciadas e até artigos sofisticados, como guarda-corpos de aço inox e outros.

A GMS, que no início trabalhava apenas com ferragens Blindex e que até hoje é a única empresa autorizada a produzir as ferragens da linha 2000, lançou há alguns anos a linha Europa. Gerone comenta que ainda encontra resistência na comercialização desse produto mais requintado, que oferece a possibilidade de instalação por furação ou por recorte.

Já a curitibana Elber diferenciou-se pelo material utilizado na produção das ferragens, conforme abordamos a seguir.

 

 

 

Ferragens de alumínio

O alumínio vem tomando espaço do latão no universo das ferragens. Mas engana-se quem pensa que se trata de um produto novo. Em 1982, em Curitiba, Jean-Paul Clément e Gilberto Soares criam a Elber para produzirem ferragem feitas exclusivamente em alumínio. Aqui vai uma curiosidade. O nome Elber foi adotado em homenagem às esposas dos dois sócios, Elaine e Bernadete, com o aproveitamento das iniciais dos dois nomes.

As ferragens de alumínio enfrentaram as dificuldades iniciais de aceitação no mercado, mas passaram essa fase e atualmente estão sendo cada vez mais utilizadas. Na região Sul, inclusive, a maior parte dos fabricantes utilizam esse material na produção das ferragens. Segundo Silvia Fernanda Ferreira, do departamento comercial da Elber, hoje, de 15 concorrentes que possuem na região de Curitiba, somente dois trabalham com latão.

A Elber trabalha com alumínio estampado e usinado e também com o injetado. Já a WA abandonou o latão há mais de um ano e atualmente trabalha somente com alumínio estampado e usinado que, segundo Regiane, é um processo de produção de ferragens de alumínio que oferece maior resistência.

Já a Safira Ferragens, empresa com três anos de idade, prefere trabalhar com o alumínio injetado. Segundo Ana Paula Terêncio, do departamento de marketing da Safira Ferragens, esse processo permite a criação de designs diferenciados nos produtos e uma maior padronização no processo produtivo. Alias o design é o grande diferencial da empresa, que adotou formas arredondadas nas linhas tradicionais.

O alumínio, porém, não é unanimidade. Gerone da GMS, por exemplo, defende que o latão ainda é soberano. Ele diz “O latão ainda é o  material mais nobre e o que melhor atende este mercado, pois se não se tratar de aproveitamento de sucata, mas de material com acompanhado com certificado de orígem, nenhum material hoje empregado para este fim o supera, em resistência, durabilidade, aderência, acabamento e resistência a intempéries.”

Os ferragistas nacionais somente são unânimes em rejeitarem o zamac, liga de zinco composto por alumínio, cobre,magnésio e zinco. Bastante utilizado nas ferragens produzidas no exterior, aqui no Brasil não caiu no agrado popular.

 

 

Polímero Metalizado

 

Em 2005 chega ao mercado uma ferragem inédita, feita de um material pertencente à família dos plásticos: o polímero metalizado. A desconfiança quanto à resistência e durabilidade desse polímero utilizado há anos na indústria automobilística continua até hoje para muitos. Porém, a empresa registra crescimento ano a ano e muitos céticos já adotaram o produto após testá-lo na prática.

Segundo Max Del Olmo, diretor da empresa, a proposta da AL foi facilitar e modernizar as instalações de vidro temperado e a maior prova de eficiência do produto está no fato de que vários dos primeiros clientes da empresa até hoje a prestigiam, tornando-se os maiores divulgadores da novidade.

Para Max o grande reconhecimento do mercado se manifestou com a conquista no final do ano passado, quando conquistou o prêmio Destaque, da Associação Nacional de Vidraçarias, na categoria ferragens.

 

 

Ferragens ecológicas

 

Para se diferenciar no mercado de ferragens é importante acompanhar as tendências. E a atual é de materiais ecologicamente corretos. Atenta a isso a Dorma lançou na última Glass South America a linha de ferragens ecológicas Smeco.

Além de serem as únicas com a grife Dorma impressa, ela oferece a proposta de recompra pela empresa quando a instalação for desfeita. A empresa se compromete a pagar pelo peso de sucata e reaproveitar o material. Segundo a gerente da divisão de produtos para vidros da multinacional, Claudia Patrícia Lopes, a aceitação do produto tem surpreendido positivamente.

Só por curiosidade, o apelo ecológico tem sido um argumento tão forte que já existem fabricantes de perfis de alumínio que cobram mais caro por perfis feitos somente de material reciclado.

 

 

Mercado Aquecido

 

O setor de construção está bastante aquecido e, com ele, o de ferragens para vidros temperados. Prova disso é que empresas criadas há poucos anos estão crescendo rapidamente. É o caso da Megamax, fundada em 2007. A empresa já dobrou seu almoxarifado e vê 2011 com muito otimismo.

Como diferencial a Megamax está apostando no atendimento personalizado. Fernando Fuchini de Souza explica: “Aqui o vidraceiro é atendido sempre com muita simpatia, presteza e educação, numa sala confortável com ar condicionado, sofá, cafezinho quente, água e balas. Procuramos avaliar as necessidades de cada um, individualmente, e nosso maior objetivo é que o cliente saia satisfeito.”

Da mesma forma a Super 5, fundada em 2008, tem crescido vertiginosamente. A empresa dirigida pelo ex-gerente da Elber, Luiz Carlos, começou pequena em um barracão com 150 metros quadrados e terceirizando alguns processos. Hoje ocupa um prédio com 1.200 M2 de área construída e 95% dos processos são internos. Além disso dispõe de cinco lojas para comercialização, sendo uma loja virtual (e-commerce) e quatro lojas físicas.

Diversas outras empresas responderam à reportagem de T&V que estão bastante satisfeitos com o grande consumo registrado em 2010 e neste início de ano, apontando para um futuro promissor para os próximos meses.

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